Bakhtin aborda a construção do sujeito humano, do sentido e da ética não apenas pelas lentes formais da filosofia ou da linguística, mas mediante, sobretudo, as lentes interminavelmente difusas da literatura. Ler Bakhtin fornece um espectro de intuições únicas e poderosas sobre o romance, ajuda-nos a expandir essas intuições em direções que excedem o escopo do romance ou até da literatura propriamente dita, contextualizando-a contra o pano de fundo do que Bakhtin chamará de o universal do dialógico. A natureza das fronteiras entre literatura e mundo, ou mais propriamente, o modo como esses e outros fenômenos se mesclam ou desconstroem inteiramente as fronteiras é o que torna ler Bakhtin uma tarefa que gera, quase sempre, recompensas inesperadas.
O fenômeno que encampa e une os vários elementos da obra de Bakhtin, até mesmo mais que a literatura, é a linguagem. Seja no contexto da vida cotidiana, na boca de pessoas reais ou nas páginas de obras literárias, na boca dos não menos reais autores e heróis bakthinianos, a linguagem encarna e abre acesso às várias fases da experiência humana.
Mikhail Bakhtin pode ser lido de três maneiras:
(a) continuamente do primeiro ao último capítulo, defrontando os principais conceitos bakhtinianos no contexto do pensamento de Bakhtin como um todo e no processo de sua evolução;
(b) outros leitores podem começar pelo capítulo do dialogismo, percorrer os conceitos maduros de heteroglossia, cronotopo e carnaval e depois retomar os capítulos iniciais, pensando em explorar as raízes das quais eles emergiram;
(c) por fim, os capítulos podem ser lidos separadamente como abordagens individuais de conceitos específicos, com o leitor aceitando ou recusando convites a se conectar com outras áreas do pensamento de Bakhtin, de acordo com sua inclinação.