Não tenho ouvido absoluto como certos músicos nem sensível como o dos cachorros, mas nunca entendi por que o ruído não é considerado um tipo eficiente de arma branca , diz o personagem desse novo romance de Patrícia Melo, um pacato professor de biologia, ao sentir-se atingido pelo barulho provocado pelo novo vizinho. Afinal, para ele, as gargalhadas que vêm do andar de cima, em rajadas histéricas e pontiagudas, cheias de ás e ris, são capazes de feri-lo: não como a pistola, a faca, ou a corda , mas como certos venenos que nos cegam e tiram nossa lucidez.
O que o senhor chama de barulho , retruca o novo morador do prédio sou eu vivendo. Viver é barulhento. A antipatia mútua entre os novos vizinhos rapidamente se transforma em ódio e a violência da guerra que se segue nos remete aos monstros míticos Gog e Magog, que se alimentavam de carne humana, fetos e cadáveres.
Confrontando bem e mal, crime e castigo, sanidade e loucura, vida e morte, som e silêncio, Patrícia Melo amplia o escopo da prosa urbana que a consagrou como uma das principais autoras brasileiras contemporâneas, ao retratar um Brasil marcado pela injustiça e desigualdade, onde a vida perdeu seu valor fundamental e o homicídio passou a ser uma forma de resolver problemas corriqueiros