O que mais se nota nas fotos de ltapoã tiradas por Fernando é a intimidade do fotógrafo com o material fotografado. Conheço Fernando desde a adolescência e sei o quanto sua alma pertence a ltapoã. As pedras sob a água, os olhos do menino que come comidas de dendê, as cores do mar e do céu, as folhas das amendoeiras contra o pôr-do-sol, tudo é beleza achada no acaso milagroso dos fotógrafos (coisa que sempre me assombra porque eu próprio nunca tirei fotografias), mas no caso de Fernando toda a beleza se concentra na identificação dele com seu objeto. Ele está sendo fotografado ali, como um pedaço a mais da vida em ltapoã. O ângulo que salva a Lagoa do Abaeté da violência que ela foi vítima, tanto pelo descaso quanto pela intervenção das autoridades, é prova de amor profundo. E esse amor vem de verões da infância. Da infância e de toda a vida. As pernas do catador de peixe miúdo, o olhar da menina que faz acarajé, o sorriso ultrabaiano das senhoras pretas, o carinho dos pais mestiços com seus filhos enganchados no pescoço, tudo são instantes da vida mais íntima de Fernando. O Farol, a areia, a onda com sargaço. O bairro é parte do corpo do artista. Fernando tornou-se sociólogo e passa os meses de trabalho em Brasília, mas os verões são indisputadamente de ltapoã. É isso que vemos em suas cores, suas formas, suas sombras. Que ltapoã se veja nele. Que cada pessoa que conhece por dentro esse universo possa se reencontrar nessas imagens selecionadas. E que cada pessoa que não conhece ltapoã passe a conhecer. A Bahia se enriquece - Caetano Veloso.