Paulo Leminski foi uma das grandes surpresas da poesia brasileira nos últimos trinta anos. Pertencendo a uma geração de insatisfeitos e irreverentes levou a insatisfação e a irreverência àquele ponto extremo para o qual só há uma saída: renovar ou se retirar. Renovou. Teve o dom mágico de mostrar ao país uma voz inconfundível, personalíssima, fluente e cheia de sonoridades misteriosas, como os rios. E como os rios, enriquecida por muitos afluentes: dos haikais de Bashô às experiências concretistas. Em vida, Leminski lançou três livros de poemas: Caprichos e Relaxos (1983), Haitropikais (1985), em parceria com Alice Ruiz, e Distraídos Venceremos (1987). Outros foram publicados após a sua morte, mostrando um poeta prolífico e fascinado por muitos caminhos, mas extremamente preocupado com a linguagem, a expressão gráfica do poema, herança talvez do concretismo, e a concisão: um pouco de mão/ em todo poema que ensina/ quanto menor/ mais do tamanho da china . Essas preocupações podem sugerir que tenha sido um poeta de gabinete. Nada mais falso. Os poemas de Leminski nascem de suas vivências de beatnik caboclo , extraídos ainda palpitantes da árvore verde da vida, e, como observou Leyla Perrone Moisés, parecem tão simples que é quase um desaforo .