Paisagens interiores reúne uma poesia de tonalidade plástica e musical. Décio Torres Cruz revela-se um poeta consumado, cuja experiência e intimidade com as palavras modelam a sua dicção de forma densa e original. O título demonstra a consciência do autor acerca dos temas e do material que modela e transfigura. A sua memória não é constituída apenas dos fatos, mas também das paisagens que os emolduram como entorno e matéria. Sua poesia é uma entidade que se constitui no mundo das ideias, da linguagem, das formas, das epifanias. Líricos, narrativos ou teóricos, seus poemas não são meras descrições do real, mas sim recriações subjetivas, como traços de uma pintura poética e musical. Organizado em duas partituras, o poeta executa representações de “Paisagens diurnas” na primeira, com uma plasticidade que configura cada poema como uma pintura plasmada em variações de uma mesma temática. Já na segunda, “Paisagens noturnas”, desdobra-se como uma sonata, com três movimentos cadenciados: prelúdio, intermezzo, finale. Um solista, intérprete expressionista e plural, com o sopro de um engenho que transforma as vivências e as memórias em imagens idílicas, Décio rege um denso e suave concerto de imagens e melodias metafóricas, com suas tonalidades plásticas e sonoras. Apresenta um mundo vivido, observado e imaginado, reinaugurando o seu modo de ver, sentir e viver a experiência de estar no mundo. Profundo leitor e conhecedor das poéticas ocidentais, sua poesia nasce das fontes da modernidade lírica, sobretudo das poéticas de expressão estrangeira. O autor contribui para adensar os enlaces de nosso lirismo contemporâneo, com o qual mantém um diálogo criativo e original. Ao ler/ver/ouvir estes poemas, o leitor terá a sua recompensa: é uma poesia que nos transporta àquelas paisagens interiores que todos recordamos e trazemos de volta ao coração.