Simples, muito próxima do gosto popular, fluindo com a naturalidade de um riacho entre pedras. A água é límpida, cristalina. Sacia a sede. Assim é a poesia de Cora Coralina, apesar da poetisa nela descobrir uma certa dureza, como expressa no poema Das Pedras :
Ajuntei todas as pedras/ que vieram sobre mim./ Levantei uma escada muito alta/ e no alto subi./ Teci um tapete floreado/ e no sonho me perdi./ Uma estrada,/ um leito,/ uma casa,/ um companheiro./ Tudo de pedra./ Entre pedras/cresceu a minha poesia./ Minha vida.../ Quebrando pedras/ e plantando flores./ Entre pedras que me esmagavam/ levantei a pedra rude/ dos meus versos .
Esses versos, de cunho autobiográfico, de certo modo, são injustos em relação à obra da autora, mas reveladores de suas mágoas com a vida. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, que mais tarde adotou o pseudônimo de Cora Coralina, nasceu em Goiás, então capital do estado de mesmo nome, em 1889, numa família de grandes proprietários rurais empobrecidos. Infância intimidada, diminuída, incompreendida . Indiferença da mãe. Casamento com um homem separado da primeira esposa, um escândalo, a fuga do casal para São Paulo. Teve seis filhos. Com a morte do marido, após 45 anos de ausência, regressa a Goiás, onde faleceu em Goiânia, em 1985.
Esses fatos, aguçados pela sensibilidade extrema, criaram um fundo pétreo, duro, na poesia de Cora Coralina. Talvez também em sua alma. Mas, ela só é dura quando fala de si mesma, de seu sentimento de inferioridade, da menina que foi um dia, feia, medrosa e triste . Quando olha para o seu semelhante predomina a simpatia humana, sobretudo pelos humilhados e perseguidos, como comprovam os comoventes poemas dedicados à Mulher da Vida , à A Lavadeira , ao Menor Abandonado . O coração era mole. Afinal, dureza para si mesmo e amor e tolerância pelo próximo são provas de grandeza espiritual.